Neste texto, compartilho algumas experiências e impressões sobre como eu ensino na perspectiva das políticas de equidade do Sistema Único de Saúde (SUS) e dos direitos humanos.

Por exemplo, o processo ensino-aprendizagem-avaliação sobre o encontro clínico deve considerar que o enfrentamento do racismo institucional enquanto determinante social da saúde (DSS) acontece com a implementação da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra -PNSIPN – na Unidade de Saúde por meio:

Do Cuidado Centrado na Pessoa o qual supera no processo de tomada de decisão clínica o estereótipo negativo (raça, gênero, misoginia, etc) e busca o encontro clínico terapêutico.

Da Prática Inter-Profissional Baseada em Evidência que ajuda no controle do viés racial implícito ativado pelo estigma da raça-cor contra a população negra.

Do Enfrentamento intersetorial  e colaborativo dos DSS, particularmente, a falta de escolaridade, a falta de moradia e o ambiente de violência.

Considero a PNSIPN, assim como outras políticas de equidade e enfrentamento de ideologias opressivas, como uma potente estratégia de controle do viés racial implícito no encontro clínico.

O curso de Saúde da População Negra foi para mim uma experiência inovadora de planejamento , implementação e avaliação (Cruz, 2016) quanto ao processo de ensino-aprendizagem sobre o enfrentamento do racismo e sua desconstrução no ponto do cuidado, principalmente.

curso saúde da população negra

No sentido de desenvolver experiências inovadoras para o ensino clínico, propus com a ajuda de colegas docentes da Escola de Enfermagem, a disciplina  Diversidades, Equidade e Cuidados em Saúde (Cruz, Vidal, 2015). Nesta disciplina, o foco é a preparação do(a) graduando(a) da área da saúde para o encontro clínico centrado na pessoa, com respeito à sua diversidade e autonomia.

A  ementa da disciplina prevê o desenvolvimento de competências para a implementação do Cuidado Centrado na Pessoa, de forma inter-profissional, colaborativa e baseada em evidência, com respeito à diversidade (étnico-racial, gênero, orientação sexual, religiosa, capacidade física, etc), tendo  como referenciais os direitos humanos as políticas de Equidade do SUS.

Uma estratégia desta disciplina é a “Sala de aula invertida” ou flipped classroom. E para sua operacionalização, criei lições interativas online no ambiente virtual de aprendizagem (Moodle e, posteriormente, Classroom), a saber:

•Desconstruindo a opressão em saúde com as Políticas de Equidade

•Para cuidar de mim tem que saber quem eu sou

•Perguntar não ofende e ajuda a revelar iniquidades…(DSS como parte da história clínica)

•Enfermagem Centrada na População & Pessoa

•Na cena da discriminação – como tomar a decisão certa?

•Como prevenir a fadiga de compaixão?

•Risco para violência: diagnóstico e tratamento pela(o) enfermeira(o)

Uma estratégia fundamental é o estudo de caso em enfermagem e saúde das populações vulneráveis. Gosto de utilizar como “caso clínico” matérias de jornal que mostram ou sugerem discriminação ou, no mínimo, o tratamento desrespeitoso. Por ex:

Observe a cena, reflita e responda – estratégia de caso clínico

A dramatização é indubitavelmente o melhor recurso teórico-prático para o desenvolvimento de habilidades afetivas, tal como o respeito à pessoa e sua diversidade (Cruz, 2023).

recurso andragógico da disciplina DECS

Na disciplina, as metodologias mais utilizadas na dramatização são o role play como em “Doença Estranha”

role play paciente e estudantes como enfermeiras(os) entrevistadoras(es) clínicas(os)

No Laboratório de Prática a estratégia é o paciente simulado.

Laboratório de Encontro Clínico – Entrevista Compassiva com paciente simuladx.

No Laboratório de Encontro Clínico – Entrevista Compassiva – conto com o apoio do Coletivo de Teatro Transparente para atuar como paciente simuladx, assumindo um papel dentro de uma situação clínica simulada (o cadastro individual do SUS) com a finalidade de treinamento de habilidades sobre empatia, compaixão, assertividade, entre outras.

Quanto ao compartilhamento social do conhecimento, este acontece principalmente por meio do Fórum Permanente em Saúde das Populações Vulneráveis (FPSPV) uma atividade de ensino-aprendizagem-avaliação aberta ao público em geral. Uma outra estratégia de compartilhamento é a Sessão de Posteres.

O modelo de ensino  é interprofissional e colaborativo (Cruz, 2023).

interprofissionalidade em saúde
Oficina Interprofissional em Saúde

Na Oficina Interprofissional, os(as) docentes e eu incentivamos a autonomia do(a) graduando(a) em saúde, com ênfase na avaliação formativa, no conhecimento para a resolução de problemas reais, na aprendizagem ativa e colaborativa, bem como no compartilhamento do conhecimento.

Ainda que o cronograma da disciplina não seja extenso e a grade de aulas dos(as) estudantes não permita muitos deslocamentos, já tivemos experiências de análise de ambiência em visita à comunidade, como por exemplo, uma vila caiçara em Niterói.

A avaliação formativa acontece durante todo o período por meio de rubricas para auto-avaliação e para a Sessão Poster. Igualmente por meio de estudos dirigidos com retroalimentação mediata (após fechamento dos questionários).

Potenciais & déficits da disciplina

•👍🏾Material didático e estudos de caso baseados na realidade

•👎🏾falta de atividade  em campo com as populações vulneráveis

•👎🏾Resistência ao modelo de ensino-aprendizagem baseado em projeto

•👎🏾Falta de familiaridade com aprendizagem online, sócio-construcionista (Moodle), assim como com a sala de aula invertida (é preciso estudar antes porque em sala é tudo prática!)

•👍🏾Foco no autoconhecimento dos viéses

Mensagens chave

Com a experiência da disciplina, posso afirmar que o processo ensino-aprendizagem-avaliação deve colaborar com o(a) graduando(a) para:
1- identificar o viés implícito como uma barreira ao SUS ativada por DSS
2- reconhecer o efeito (ou custo) do viés implícito à saúde da pessoa/população socialmente vulnerável e ao país
3- implementar estratégia(s) para redução ou controle do viés implícito dirigido à pessoa/população socialmente vulnerável, tendo como referencial às políticas de equidade do SUS

Referências

CRUZ, Isabel CF da. Educação permanente online em saúde da população negra – avaliação dos resultados. Boletim NEPAE-NESEN, [S.l.], v. 13, n. 2, oct. 2016. ISSN 1676-4893. Disponível em: <http://www.jsncare.uff.br/index.php/bnn/article/view/2883/712>. Acesso em: 09 july 2023.

Cruz, I., Vidal, A. Teaching diversity and equity for health undergraduate students – a proposal. Journal of Specialized Nursing Care,, 7, sep. 2015. Available at: <http://www.uff.br/jsncare/index.php/jsncare/article/view/2784/671>. Date accessed: 09 july 2023 .

Cruz, Isabel. Oficina Interprofissional de Saúde: construindo uma experiência de prática. NEPAE/UFF. Niterói, 07/05/2023.

Cruz, Isabel Risco de comprometimento da dignidade humana: quando a causa é o sistema de saúde. A solução também. NEPAE/UFF. Niterói, 27/05/2023. Disponível em https://nepae.uff.br/?p=2764

Como citar:

Cruz, ICF da O ensino clínico do cuidado de saúde isento de viés implícito. NEPAE/UFF. Niterói, 09/07/2023. Disponível em http://nepae.uff.br/?p=3251

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